Especialistas alertam que lesões persistentes na boca, rouquidão e dificuldade para engolir podem ser sinais da doença
No mês de conscientização do câncer de cabeça e pescoço é lembrada a importância da atuação dos cirurgiões-dentistas para o diagnóstico precoce da doença. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), este tipo de câncer soma mais de 1,7 milhão de novos casos por ano em todo o mundo. Já o Instituto Nacional de Câncer (INCA) aponta o câncer de cavidade oral entre os tumores mais incidentes no país.
Muitas das alterações iniciais podem ser identificadas durante consultas de rotina, antes mesmo do aparecimento de sintomas mais graves. Cirurgiã-dentista, especialista em odonto-oncologia e colaboradora do Centro de Terapia Oncológica (CTO), Angélica Sant’Anna destaca que a saúde bucal exerce papel fundamental na prevenção e no diagnóstico da doença. “Quando o paciente apresenta inflamações crônicas, cáries extensas e outros focos infecciosos, há alterações da imunidade na cavidade oral. A saúde bucal inadequada, associada a outros fatores de risco, pode contribuir para o aparecimento do câncer de cabeça e pescoço”, explica.
Ela alerta que muitas lesões são silenciosas e acabam sendo ignoradas pelos pacientes. “São feridas que muitas vezes a pessoa acredita que vão desaparecer sozinhas. Mas, se uma lesão persistir por mais de 15 dias, é fundamental procurar avaliação profissional”, orienta.
Além de feridas que não cicatrizam, Angélica ressalta que rouquidão persistente, dificuldade para engolir, nódulos no pescoço e corrimento nasal sem relação com quadros gripais também merecem atenção.
Entre os principais fatores de risco estão o tabagismo, o consumo de bebidas alcoólicas — especialmente quando associados —, a infecção pelo HPV (relacionada ao aumento entre jovens) e a exposição excessiva ao sol, quando a lesão começa nos lábios. Como medidas preventivas, a especialista reforça a importância de manter uma boa higiene bucal, evitar o cigarro e o consumo excessivo de álcool, além de manter a vacinação contra o HPV em dia.
“O cirurgião-dentista é o profissional capaz de identificar clinicamente uma lesão pré-maligna ou maligna e, muitas vezes, realizar a biópsia que confirma o diagnóstico. Não deixe de ir ao dentista pelo menos duas vezes por ano. Muitas dessas lesões são indolores e só são percebidas durante o exame clínico”, afirma.
Atuação antes, durante e após o tratamento
A participação do cirurgião-dentista também é considerada essencial durante todo o tratamento oncológico. Segundo a dentista do CTO, antes do início da radioterapia ou da quimioterapia, o profissional realiza a adequação do meio bucal, eliminando focos infecciosos que podem comprometer o tratamento. Durante a terapia, acompanha o paciente para reduzir os efeitos colaterais, utilizando recursos como laserterapia de baixa intensidade, saliva artificial, analgésicos específicos e orientações de higiene bucal, contribuindo para aliviar a dor, favorecer a cicatrização e evitar que o paciente interrompa a alimentação ou necessite de internação.
Após o tratamento, o acompanhamento continua sendo indispensável devido aos efeitos tardios da radioterapia, que podem comprometer as glândulas salivares e o tecido ósseo, aumentando o risco de cáries por radiação, infecções e redução da produção de saliva. “A saliva tem papel fundamental na proteção da cavidade oral. Pacientes que passaram pelo tratamento acabam precisando de um maior acompanhamento odontológico ao longo da vida para prevenir complicações”, destaca.
Diagnóstico precoce faz diferença
Médico oncologista do CTO, Bernardino Ferreira reforça que os tumores de cabeça e pescoço podem atingir regiões como lábios, língua, bochechas, gengivas e orofaringe, apresentando características e comportamentos distintos.
Entre os fatores de risco, ele acrescenta a obesidade, o consumo frequente de bebidas muito quentes e a ingestão excessiva de carnes vermelhas e processadas.
O especialista orienta que as pessoas aproveitem o momento da higiene bucal para observar atentamente a boca. “Olhe a cavidade oral, observe a língua, procure identificar alterações. Qualquer suspeita deve ser avaliada por um médico ou cirurgião-dentista. O diagnóstico precoce é fundamental em todos os tipos de câncer porque aumenta significativamente as chances de cura. Além disso, muitas vezes permite cirurgias menos agressivas e pode até reduzir a necessidade de tratamentos complementares”, conclui.
